Berlin 2: Quando o trabalho não liberta…


ATENÇÃO: O post de hoje fala de um assunto bastante delicado e que poderá deixar muitos de vocês abatidos e reflexivos. Não poupei palavras para descrever o que vi (o mesmo para o vídeo). Ainda assim, cada minuto que vivi (para agora poder relatar neste post) foi um mergulho intenso no valor à vida.

(Esse post é uma “continuação” do post anterior, sobre a tarde do meu primeiro dia em Berlin. Sim, Berlin é tão gigantesca que vai merecer mais um post!!!)

Como eu havia comentado anteriormente, saímos do albergue que tínhamos acabado de chegar e já estávamos prestes a pegar um city tour bem maneiro pela cidade, para dar aquela familiarizada com o ambiente (hein?! hehehe). Seguimos o guia até a praça principal do Brandenburger Tor |brân-den-búr-gar tór| [Portão de Brandemburgo] – um lugar com história fascinante.


Ach so! |árr-zô| [Ah, sim!!!] Concluído em 1791 com a função principal de “entrada para a cidade de Berlin” e posterior “portão da vitória”, o Portão de Brandemburgo é um dos maiores cartões postais de Berlin. Possui arquitetura notadamente neoclássica (12 pilares gregos em 6 colunas, formando 5 ruas transitáveis), sendo que a pista central – de vão maior – só poderia ser transitada pela antiga elite alemã. No topo da estrutura repousa uma escultura com diversos outros símbolos, chamada “quadriga” – constituída de uma deusa sobre uma biga puxada por 4 cavalos (a deusa grega Irene ou a romana Pax). Apenas a própria quadriga em si já tem um histórico fantástico sobre sua construção, rapto e retorno ao local de origem (por Napoleão Bonaparte) e restauração/posicionamento da escultura durante a Alemanha dividida. Só não vou colocar aqui senão o post ficaria com 10 páginas! hehehe

Estávamos todos reunidos com as outras centenas de turistas, e qual não foi a nossa surpresa quando anunciaram os tours do dia! Com um certo receio – mas movidos pela adrenalina – partimos para o tour especial da sexta-feira entitulado “Sachsenhausen Concentration Camp”, |Zár-zen-rráu-ssen| [Campo de concentração de Sachsenhausen], um dos campos mais frequentados por Hittler, aonde deliberava sobre as estratégias para espalhar o terror do Holocausto.


Ach so! [Ah, sim!!!] O “Nationalsozialistischen Konzentrationslagers Sachsenhausen”, como era chamado na Alemanha nazista de 1936, fica ao norte da cidade-estado de Berlin – já no estado de Brandenburg, em uma viagem de 40 minutos de trem (direção à cidadela de Oranienburg). Construído tão próximo à Berlin, o KZ Sachsenhausen tinha a função principal de manter prisioneiros políticos e, fundamentalmente, era um campo-escola para os oficiais nazistas. A arquitetura e disposição dos barracões, métodos de tortura, experimentações médicas e reuniões da alta cúpula nazista ocorriam justamente aqui – em um campo destinado não ao extermínio (imediato, que fique bem claro) dos prisioneiros, mas à produção industrial de artigos bélicos em geral. Durante seu período de funcionamento, mais de 140 mil prisioneiros passaram pelos muros e cercas de Sachsenhausen.

Saltamos na estação principal de trem e fomos andando até a entrada da rua que dá acesso ao campo. “Por essas casas que vocês estão vendo, por esse chão que estão pisando, milhares de judeus, homossexuais, ciganos e prisioneiros políticos passaram em direção ao final desta rua… sendo machucados e humilhados pela população alienada pela propaganda nazista…”, dizia com tom firme o guia. E foi aqui, com um frio repentino na barriga, que eu percebi aonde eu realmente tinha me metido.

Chegamos no Memorial do campo por volta de meio dia, e logo já estávamos mergulhados em parte da história mais negra do planeta. Apesar de Sachsenhausen ter sido um campo de trabalho (e não de extermínio, como Auschwitz), saber das histórias que ali ocorreram era algo impressionante, chocante.

Já no portão principal do campo, em letras garrafais e sombrias, uma frase mundialmente conhecida: “Arbeit macht Frei” |ár-báit má-xyt frái| [o trabalho liberta], supostamente dando esperanças aos prisioneiros que, aos que muito trabalhassem, as suas libertações estariam garantidas. No entanto, a única libertação viria quando seus últimos suspiros fossem dados… em suas mortes.

Tudo que iria ser definido para os outros campos era primeiro testado aqui. O formato triangular do campo, por exemplo, mostrou-se ineficiente para ângulos maiores que 180 graus (à partir da torre A, a construção mais alta no campo de concentração, de onde um guarda poderia teoricamente alcançar qualquer suspeito). Ali também está o Ballroom, salão de festas dos maiores oficiais nazistas, aonde Hittler e seus comparsas planejavam e festejavam as ações na busca da supremacia ariana, sendo servidos pelos subnutridos garçons judeus (aos que viram o filme italiano “A vida é bela”, é bem aquilo mesmo…). “A lista de Schindler” também não saía da minha cabeça…

O tour nos levou ao modelo de um dos barracões aonde 400 prisioneiros moravam, dividindo um espaço impossível para tal número. Segundo o guia, até 3 pessoas dividiam a mesma cama. Dalí, passamos por um museu subterrâneo que mostra alguns objetos dos antigos prisioneiros, bem como alguns uniformes e cartas.

Adiante, fomos para o monumento às vítimas daquele campo (hoje situado no centro do campo triangular) e, dali, para o lugar mais forte de todos: ruinas da câmara de gás, fosso de fuzilamento e pátio de cremação. Respeitando os mais impressionáveis, os interessados poderão ver mais detalhes dessa parte no vídeo desse post.


Ach so! [Ah, sim!] Se os fossos de fuzilamento eram muito mais práticos e rápidos, por quê mudar para o trabalhoso método da câmara de gás? A resposta é assustadora: os próprios carrascos nazistas (que passavam 8 horas por dia atirando) estavam tendo surtos de esquizofrenia – pois viam a resistência à morte e o sofrimento dos executados. No sistema de câmaras de gás, os prisioneiros acreditavam que estavam indo para uma consulta médica (até sentavam em salas de espera que simulavam hospitais mesmo) e eram divididos entre os que tinham dentes de ouro e os que não. Não mostravam qualquer resistência. Os que não tinham ouro eram encaminhados diretamente para a câmara de gás (que simulava uma sala de banho, com bocais de chuveiros por onde saia o gás mortal). Já os que tinham dentes de ouro, esses eram encaminhados para uma sala aonde sentavam em uma cadeira de frente para uma pequena janela, aonde teoricamente o “doutor” atenderia. No entanto, uma pequena janela atrás do prisioneiro se abria e apenas o cano de uma arma se projetava para fora da parede sólida. Todo o complexo do “hospital da morte” trazia paredes duplas e sistema de música clássica alta (para abafar qualquer gemido ou grito dos que morriam), pois outros prisioneiros já aguardavam pela “consulta” na sala de espera. A engenharia nazista para o terror não conhecia fronteiras.
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O tour terminou na seção de enfermaria e posto médico, aonde os atestados de óbito dos prisioneiros sempre traziam como causa mortis “leucemia”, “ataque cardíaco” ou “pneumonia”… sendo as referências para fuzilamento, afogamento ou morte em câmara de gás.

Talvez esse tenha sido um dos momentos mais pensativos da minha vida, e um dos mais fortes também… em saber que aquela terrível história que ali tinha acontecido era também minha, era parte da história do mundo, do MEU mundo. Longe do Brasil, mas ainda assim no mesmo mundo! Não, não foi fácil… mas cada segundo, cada passo dado dentro de Sachsenhausen, era um estímulo a mais para viver – intensamente – a minha vida.

E, mais uma vez, eu me senti um cidadão do mundo.

Até o próximo post, pessoal. Fiquem na paz!!!

Rafael Guimarães

Rafael Guimarães

Rafael é estudante de Engenharia Florestal e vai estagiar em uma das melhores empresas do setor, na Alemanha. Além, claro, aproveitar para se divertir na Europa. Acompanhe aqui

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