Entrevista: uma gaúcha feliz da vida em Cingapura

Morando há quatro anos em Cingapura, a erechinense Juliana Colpani e o marido, Vínicius Rosa, não tem planos de voltar tão cedo para o Brasil. Quem visita o país entende o porquê.

Tudo funciona. Tudo é limpo. Tudo é organizado. E não, não estamos falando de Frankfurt, Tóquio ou Londres. Estamos nos referindo à República de Cingapura, uma pequena e encantadora Cidade-Estado, distribuída por 63 ilhas. É aqui que o casal gaúcho estão construindo sua vida longe de casa. Bem longe, mas acima de tudo, felizes.

O casal – que trocou alianças ainda no Brasil poucos dias antes de mudar de país (o casamento foi no dia 29 de setembro de 2012 e o embarque seis dias depois) – mora há exatos quatro anos em Cingapura e não pensa em ir embora tão cedo. Ambos tem bons empregos e uma qualidade de vida acima da média tupiniquim.

Juliana trabalha há três anos e meio como gerente de uma importadora de produtos odontológicos que atende mais de 150 farmácias e 80 clínicas particulares. Recentemente, também foi contratada pela Universidade Nacional de Cingapura (NUS) para lecionar Prótese, já que tem mestrado em Odontologia Clínica pela Universidade de Passo Fundo.

Por sua vez, foi o convite de emprego oferecido a Vinícius (ainda em 2012), na mesma Universidade Nacional, que fez os dois deixarem o Rio Grande do Sul para trás. Vinícius chegou empregado como professor/pesquisador da NUS e continua no cargo até hoje – com perspectiva de ascensão na instituição.

Nesta entrevista ao blog, concedida durante mais de uma hora e meia de caminhadas, paradas e fotos em meio à incrível Marina Bay – incluindo no roteiro suas três torres (Marina Bay Sands) e o Gardens By The Bay – Juliana fala um pouco de sua vida em “Cinga”, como boa parte dos dois mil brasileiros que aqui residem costumam se referir ao país, e garante que é possível viver bem sem gastar tanto numa das cidades mais desenvolvidas (e caras) do mundo. Não ter carro é um dos segredos.

Ela também não esconde a saudade da família e esclarece: “Às vezes, as pessoas pensam que por morarmos longe, cada final de semana é um evento; nossa vida está longe disso. Trabalhamos muito, mas sem dúvida, somos muito felizes aqui” – completa. Juliana ainda dá dicas para marinheiros de primeira viagem na terra onde quase tudo brilha e as pessoas não mascam chiclete. Ficou curioso?

Leia os principais trechos da conversa, que também foi reproduzida aqui, e você vai entender melhor:

Quais as diferenças entre morar em Cingapura (um dos dez países mais desenvolvidos do mundo e top 1 na Ásia) e o Brasil? O que mais te marcou nesta mudança?

Cito em primeiro lugar a segurança. Aqui é extremamente seguro. Posso andar tranquilamente sozinha em qualquer lugar com o meu celular na mão. Não existe preocupação quanto a isso. A cidade é limpa e organizada. O transporte público é eficiente e barato. Existem muitas oportunidades se você não tem preguiça de aprender e trabalhar. Porém, diferente do Brasil, é quase impossível comprar um carro! Os impostos, estacionamentos, tarifas etc. são muito caros. A justificativa para isso é que, além de termos um transporte público sensacional, o país é uma ilha pequena. Se todos comprassem carros, seria impossível transitar! O povo tem hábitos bem diferentes. A cultura oriental é muito nova para nós. Hoje em dia, estamos adaptados, mas no início, tivemos que aprender muita coisa!

Quais hábitos orientais você acha já “incorporou”?

Diria que são vários, especialmente, nas pequenas coisas. É mais uma questão cultural, que vai do respeito em relação ao próximo, passando por aproveitar melhor nosso tempo, até, por exemplo, o costume de tirar os sapatos antes de entrar em casa. Aqui, é comum isso porque eles acreditam que ao tirar o sapato antes de entrar em determinados locais, você deixa para trás as impurezas, além, é claro, de facilitar a limpeza (rs). Hoje, não me sinto bem ao entrar na casa de alguém com meus sapatos.

O custo de vida em Cingapura me parece alto, especialmente, se comparado com outros países do Sudeste Asiático. Acabei de vir do Vietnã e lá é tudo, na média, a metade do preço daqui ou menos. Imagino que seja preciso ter um bom salário para se viver bem por aqui.

Infelizmente, muitos dos países que circundam Cingapura são pobres. Alguns estão em desenvolvimento, é verdade, mas na média, seguem subdesenvolvidos. Isso faz com que Cingapura se destaque e chame mais a atenção. Acho, também, que existe um certo exagero quando as pessoas se referem ao custo de vida aqui: depende muito do seu estilo de vida e, no geral, esse alto custo justifica-se pela moradia e carros particulares. Confesso que quando vou ao Brasil fico chocada com o preço da comida. Aqui é muito mais barato. Aprendi com o tempo a ir à feira e em supermercados de redes mais populares. Existem certos itens que você realmente paga um preço caro, mas no geral, é mais barato que no Brasil. Se você optar em não ter carro (como nós), a vida se torna mais barata ainda. É claro que não temos uma vida luxuosa, estamos economizando para o futuro, mas aqui você consegue ganhar suficientemente bem para fazer uma poupança e aproveitar a vida, sim!

Este futuro ao qual você se refere seria aqui mesmo ou a vida na Ásia, para vocês, trata-se apenas de um período?

Nós não temos nenhum plano de ir embora. Amamos a nossa vida aqui e as oportunidades que este país nos oferece.

Nas horas vagas, o que você faz?

Além de lavar, passar e cozinhar? (rs) Temos uma vida normal: saímos jantar, gosto de ir à academia, viajamos, fazemos churrasco com os amigos. Às vezes, por morarmos longe, cria-se a fantasia de que todo final de semana é um evento! E não é assim. Trabalhamos bastante. E somos bem caseiros. Às vezes eu só quero a minha casa, mas, sem dúvida, somos muito felizes aqui!

Você falou que gosta de viajar. Quantos países aqui por perto já visitou?

Já viajamos bastante nesses quatro anos. Fomos para Tailândia, Indonésia, Malásia, Vietnã, Myanmar, Hong Kong, Coreia do Sul, Japão, Macau, Emirados Árabes, Austrália… Mas aqui ao redor é lindo demais! Cada país é praticamente um arquipélago cheio de praias e resorts maravilhosos.

Qual país te marcou mais?

Mianmar é incrível. É pobre, de um povo sofrido, mas muito querido e atencioso. As belezas naturais são sensacionais e inesquecíveis, especialmente a cidade de Bagan.

Depois de 48 meses em Cingapura, você é quase uma local. Que dicas você daria aos brasileiros e demais estrangeiros que possam visitar o país pela primeira vez?

Em primeiro lugar: Gardens by the Bay, durante qualquer horário do dia, mas especial e pontualmente, às 19:45 ou 20:45. Lá tem shows  de luzes diários e gratuitos a partir das árvores (duração de 15 minutos). Eu acho maravilhoso e único! Segundo: toda a região do Marina Bay/Downtown (centro) em si. Caminhar pela ponte Helix, Merlion, roda gigante, barzinhos, seguir a River Walk até Clarke Quay, principalmente ao entardecer e com as luzes, fica ainda mais bonito. Terceiro: se algum dia estiver muuuito quente ou então chover, corra para o Flower e Gorest Domes ao lado do Gardens By the Bay. Tem que pagar a entrada (cerca de R$ 62,00 duas pessoas), mas é simplesmente maravilhoso! Eles são bem diferentes um do outro, com climatização e completamente fechadas. Ah, eu acrescentaria, ainda, Chinatown (templos) e a praia artificial de Sentosa.

Qual o melhor lugar para comer a autentica comida/prato de Cingapura?

Todos os chamados “hawker centres” espalhados pela cidade te dão a oportunidade de, por um ótimo valor, experimentar vários pratos locais! Mas se quiser um lugar que una história e comida, eu aconselho o Lau Pa Sat. É uma construção da época da colonização britânica do século XIX, recentemente reformado! Comam chicken rice, cereal prawn, wanton soup, fried carrot cake, dumpling, laksa… Nossa! Tem muita coisa gostosa!

Que história é essa de não poder mascar chiclete por aqui?

Poder até pode, mas não se vende chiclete aqui. Você tem que trazer de fora. Aboliram o chiclete, ainda na década de 90, por que é muito difícil de limpar. E a multa para quem jogar o chiclete no chão é de 700 dólares. Então, não é bom facilitar.

Por fim, por favor, cite três coisas que você mais sente falta no/do Brasil?

Família, família e família! Todo o resto a gente dá um jeito!

Voltar pra quê?
Voltar pra quê?

Saiba mais sobre Cingapura:

  • Localização: Sudeste Asiático – faz divisa com a Malásia (ligado por uma ponte com a cidade malaia de Joho Bahur) e via estreito de Cingapura, com a Indonésia.
  • População: 5,7 milhões (Fonte: Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais das Nações). Para se ter uma ideia, até o início da década de 90, o total era de apenas 3 milhões de habitantes.
  • Área total: 716 km².
  • Idioma: quatro são as línguas “oficiais” do país, mas na escola, o inglês é o carro-chefe. As outras línguas são: malaio, mandarim e tâmil.
  • Moeda: Dólar de Cingapura (vale um pouco menos do que o dólar americano. Numa comparação rápida, 3 reais equivalem a 1 dólar cingapuriano.
  • Curiosidade: há bairros e ruas inteiras habitadas por moradores de determinados países, especialmente, chineses, árabes e indianos (além de Chinatown, Little India é outra pedida interessante na viagem à Cingapura). Este mix cultural deixa o país ainda mais incrível.
  • Cingapura, que tem sua economia baseada no livre-mercado, é líder mundial em diversas áreas, sendo o quarto principal centro financeiro do mundo, o segundo maior mercado de casinos e o terceiro maior centro de refinação de petróleo do planeta. Seu porto é um dos cinco mais movimentados do globo. O país é o lar do maior número de famílias milionárias em dólares per capita do mundo. O Banco Mundial considera a cidade como o melhor lugar no planeta para se fazer negócios. O país tem o terceiro maior PIB per capita por paridade do poder de compra do mundo, tornando Cingapura um dos países mais ricos do planeta.
  • Transportes: por ser uma pequena ilha com alta densidade populacional, o número de carros particulares nas ruas é restrito, de modo a diminuir a poluição e os congestionamentos. Os compradores de carros devem pagar uma vez e meia o valor de mercado do veículo e disputar um Certificado de Cingapura de Titularidade (COE), que permite que o carro possa andar pelas estradas de Cingapura por uma década. Tal como acontece com a maioria dos países da Commonwealth, os veículos e os pedestres transportam-se à esquerda. Então, brasileiros e ocidentais em geral, atenção ao atravessa a rua: olhe para o “outro” lado!
  • Política: Cingapura é uma democracia parlamentar com um sistema Westminster de governo parlamentarista unicameral representando diferentes circunscrições. A maior parte do poder executivo cabe ao Conselho de Ministros, chefiado pelo Primeiro-Ministro, atualmente Lee Hsien Loong (filho mais velho do ex-primeiro ministro Lee Kuan Yew, até hoje idolatrado pela população local por ter realizado as mudanças que fizeram o país alcançar o atual status de desenvolvimento e qualidade de vida). O Partido de Ação Popular (PAP) é o partido no poder em Cingapura desde que o autogoverno foi alcançado.
  • Cingapura foi parte de diversos impérios locais desde que foi habitada no século II d.C. O país moderno foi fundado como um posto comercial da Companhia das Índias Orientais pelo britânico Sir Stamford Raffles em 1819 com a permissão do Sultanato de Johor. O Império Britânico obteve soberania completa da ilha em 1824 e a cidade se tornou um dos Estabelecimentos dos Estreitos em 1826.
  • O país foi ocupado pelo Império do Japão durante a Segunda Guerra Mundial e voltou ao domínio britânico após o conflito. Tornou-se autogovernada internamente em 1959. O território uniu-se a outros ex-territórios britânicos para formar a Malásia em 1963. Anos depois, em 1965, finalmente, tornou-se um Estado totalmente independente. Desde então, teve um aumento maciço em termos de riqueza, sendo considerado um dos quatro Tigres Asiáticos, ao lado de Hong Kong, Coreia do Sul e Taiwan.
Salus Loch

Salus Loch

Salus Loch é jornalista, advogado, escritor e fotógrafo amador, mas, acima de tudo, é um apaixonado por contar histórias e conhecer o mundo. Cada canto dele, se possível. Neste blog ele vai narrar, através de reportagens e fotos, um pouco de suas andanças – que cortam, no momento, o Sudeste Asiático. Detalhe: assim como você, ele evita gastos desnecessários em viagens. Os mochileiros irão gostar!

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