Grouse Mountain


Vancouver é uma cidade fantastica! Deve ser uma das poucas cidades no mundo que possui praias e estações de esqui. Seja em qualquer época do ano, um excelente lugar pra se visitar é a famosa Grouse Mountain. Uma estação de esqui no inverno e um grande ponto turístico o ano todo. É praticamente o mirante da cidade. Do alto dela se pode ver toda a região e o oceano.

Encontrei o Alejandro, um espanhol que é meu “hostbrother” e um amigo de classe dele, o Erick da Coréia do Sul. Nos encontramos depois da aula no bom e velho Terminal Central Waterfront para pegar o seabus até North Vancouver. Após 15 minutos de travessia chegamos ao outro terminal e pegamos o ônibus 236 até o ponto final, aos pés da Grouse Mountain.

O tempo tava meio estranho, mas como já tinha chovido pela manhã, parecia que não choveria mais. Pra se chegar até o topo tem 2 jeitos: Subir de gondola (40 dolares) ou por uma trilha (de graça!) e pra descer só se pode fazer por gondola (5 dolares)…. Parece que querem obrigar o pessoal a caminhar mesmo! rs… Por isso resolvemos encarar o maior desafio de lá, a famosa trilha Grouse Grind…

Grouse Grind é uma trilha de 3 km que leva até o topo da Grouse Mountain. É praticamente uma escadaria com trechos de pedras madeira e terra dentro da densa floresta de árvores gigantes da região. É uma subida estremamente cansativa e íngreme, que o Vans (habitantes de Vancouver) chamam de “escada-mestra” da Mãe Natureza. Todo ano têm competições de subida, e os vencedores e recordistas são premiados com honra!

Fomos subindo… e em pouco tempo adivinha o que aconteceu??? COMEÇOU A CHOVER!!!!
Mesmo com a densa floresta amortecendo a chuva, cada pingo gelado me fazia questionar o que eu estava fazendo lá! Percebi que seria um longo caminho… um friozão, uma subida impressionante, chuva e muita sede… ainda bem que tinhamos levado umas garrafinhas de água! Subiamos e paravamos pra descançar com frequência. Depois de um tempão de subida, vi uma placa que me deixou perplexo!! Dizia o seguinte:

“Atenção escaladores: Vocês acabaram de chegaram a 1/4 da trilha. A partir daqui a subida é extremamente longa e difícil. Siga por sua conta e risco”

Que vontade de explodir tudo naquela hora!!!! Sentamos e quase choramos… Descer era mais perigoso ainda com as pedras, barro e chuva… Mas tinha outras pessoas subindo também, e de todas as idades! Pouco tempo depois que sentamos passou por nós uma familia de chineses com crianças, adultos e um casal idoso. Deviam ser em 8 pessoas, e em último estava um senhor com um cajado na mão e uma mochilinha nas costas, que devia ser o avô da familia. Todos passavam e nos olhavam e/ou cumprimentavam, mas quando o vovô passou ele olhou direto pra mim e disse:

“Don’t worry, you can do it! Go Ahead!”
Não se preocupe, você consegue! Siga em frente!

Acho que ele olhou diretamente pra mim porque eu que estava mais desanimado que o Alejandro e o Erick… Mas aquelas palavras fizeram efeito! Não ia deixar de considerar os 6 mil anos da sabedoria chinesa num momento desses. Nos levantamos e seguimos em frente, dentro da fria vegetação e embaixo de chuva…

Até parei de pensar na subida e olhar pro relógio. Pensava em coisas legais, ou qualquer coisa que distraisse minha mente enquanto minhas pernas e pulmão ficavam agonizando. E foi assim por um bom tempo… Enquanto eu achava que estava chegando, o Alejandro colocou a mão no meu ombro e apontou pra frente. Naquela fração de segundos em que levantava minha cabeça, sinceramente, eu achei que veria o final da trilha, mas na verdade vi uma das coisas mais crueis de toda minha vida!!!!

UMA PLACA QUE SIMPLESMENTE ESTAVA ESCRITO: “1/2”

Naquele momento eu realmente pensei em desistir e descer mesmo com perigo de escorregar e/ou cair pela trilha… Mas aí comecei a pensar em tudo que aconteceu desde que saí do Brasil… Em tudo que vivi, conheci e aprendi… Eu já tinha cruzado o continente sozinho com uma mochila nas costas! Não ia ser uma “subidinha” que iria me vencer! Me lembrei das palavras do vovô chinês: “You can do it! go ahead!” E foi assim com as pernas e o peito doendo por causa da subida, do ar frio e da chuva, segui em frente.

E foi pensando positivamente e andando sem pensar na subida que quando me dei conta o Alejandro já estava gritando que estavamos próximos do fim. Que sensação boa!! No fim tinha outros “escaladores” parabenizando, comemorando, se abraçando e tirando fotos, todos bem orgulhosos! Até que um cara, percebendo que não eramos de lá se aproximou pra puxar conversa. Quando soube que eramos estudantes estrangeiros, que era nossa primeira vez na Grouse Grind e que tinhamos feito a subida em quase 2 horas naquelas condições climáticas, ele nos parabenizou e elogiou bastante! E fez questão de tirar uma foto nossa.

Como o Erick queria ver os ursos que vivem num “cercado” na montanha, perguntamos ao “nosso amigo fotográfo” onde ficava. Para nosso azar, a neblina lá em cima era mais forte do que imaginavamos… não dava pra ver nada em mais de 20 ou 30 metros a frente! Mesmo assim conhecemos alguns pontos do local e fomos ver os ursos. Foi o primeiro animal selvagem que vi de perto! E mesmo sendo filhotes, eles são bem grandinhos! As fotos e o vídeo deles estão em anexo.

Com a tarde avançando, voltamos pro centro turístico pra comprar nosso bilhete pra descer e demos um tempo num ponto de observação de lá. Estavamos tão impressionados com a neblina que nem percebemos quando nosso amigo fotógrafo se aproximou. Ele se chamava Greg e tinha uns 40 e poucos anos. Um cara simpático que sempre morou na região e desde pequeno fazia a trilha. Ele havia passado por nós no meio da trilha e achava que iriamos desistir da subida (e quase que ele acerta!).

Ele nos disse que aquelas montanhas eram sagradas pros povos indígenas que habitavam a região antes dos colonizadores e que a trilha original era usada por eles também. Disse que a “escada-mestra” tinha um significado muito maior do que simplesmente uma trilha difícil. Era uma reflexão sobre a vida!

Desafiando nossos limites na trilha podemos fazer uma comparação com os dasafios, dificuldades e trabalho duro que temos de fazer na vida para sermos recompensados e principalmente, nos sertirmos recompensados! Que subindo a Grouse Grind com nossas próprias forças (físicas e psicológicas!) e sermos recompensados com maravilhosa vista do topo, se tem uma sensação de superação sem preço!

Conseguir ver as longínguas Montanhas Rochosas ao leste, a nevada região de Whistler ao norte, ao sul toda a região de Vancouver e bem distante a região de Seattle e ao oeste a distante Ilha de Vancouver e a imensidão do Oceano Pacífico… Realmente é uma coisa impressionante…

Por fim ele disse que era mesmo uma pena que o tempo não estava contribuindo. E se despediu de nós dizendo pra voltar outro dia que estivesse sol, para comtemplarmos a maravilhosa vista.

Me despedi dele e fiquei ali parado, olhando fixo pra dentro da neblina (onde num dia de sol eu poderia ver toda Vancouver) pensando nas palavras do Greg. Eu já não precisava ver as paisagens dos lugares que ele havia dito. Não só porque eu já tinha ido e vivido experiências fascinantes nesses lugares, mas porque (eu acho) entendi a verdadeira mensagem que ele quis nos passar.

Refletia sobre todo o tempo de planejamento e economia pra essa viagem. Nas coisas que tive que correr atrás ou renunciar no Brasil pra viagem dar certo. Nas dificuldades superadas sozinho, em lugares desconhecidos, me virando pra falar um idioma diferente e a 10.000km de casa. Nas aulas de inglês que não foram tão faceis quanto eu imaginava…
Eu já estava subindo uma Grouse Grind a mais tempo do que eu imaginava…

Agora podia ver com mais clareza o resultado de todo esforço…
Nas novas amizades com pessoas de diversos paises, cidades e lugares que só tinha visto na TV, belezas naturais que nem em imaginação conseguiria ver e em como eu havia evoluido como pessoa…
Tudo isso foram batalhas vencidas por mim, onde ninguém mais poderia ter lutado no meu lugar…

Já não precisava me incomodar por ser os últimos momentos da minha jornada e estar no lugar onde “se pode ver o mundo” com uma forte neblina a minha frente. Porque naquele momento eu REALMENTE me dei conta que conseguia ver as coisas de um ponto de vista mais amplo, pois minha visão de mundo já ia muito além do que meus olhos conseguiam enxergar…


Galeria de fotos:

Evandro Garcia

Evandro Garcia

Evandro é formado em engenharia elétrica e adora conhecer pessoas, lugares e costumes diferentes! Nessa primeira viagem internacional - Toronto, Canadá - fará curso intensivo de inglês para melhorar o nível no idioma. Também visitará cidades e lugares conhecidos e desconhecidos da América do Norte. Acompanhe aqui esse período de grande aprendizagem.

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